OpinAtivo

Segunda-feira, 31 Março dUTC 2008

Os quinze minutos de fama

Arquivado em: Análise — Sérgio de Sá @ 11:25

Por Natalia Valle Lacerda

Várias pessoas sonham em, um dia, passar uma temporada na casa mais visitada no Brasil, isto é, participar do programa Big Brother Brasil. Os principais estímulos são os altos valores em jogo: R$ 1 milhão para o ganhador, de R$ 100 mil para o segundo e de R$ 50 mil para o terceiro colocado. E os prêmios a que os participantes concorrem dentro da casa, além, é claro, a fama tão esperada quanto passageira.

Muitas questões podem ser levantadas: será que vale a pena expor a vida pessoal para todo o país só para ganhar prêmios? Será por conta da fama? É necessário ter algum perfil ou alguma vocação para estar lá dentro? Os participantes são pessoas ou personas, quer dizer, apenas teriam máscaras que caem ao longo do programa? E será que caem mesmo? Existe mesmo o antes e o depois do confinamento, ou seja, as pessoas realmente se transformam? E o público, se transforma quando está passando o programa? Como acontece essa mudança?

Primeiramente, o Big Brother Brasil, extraído de um reality show da Holanda, tem como objetivo o confinamento de 14 participantes em uma casa isolada do mundo, mas rodeada por muitas câmeras por quase três meses. O único contato com o exterior que os integrantes possuem é por meio do apresentador Pedro Bial. Além disso, os jogadores precisam ter muita paciência, afinal têm de conviver com todos os outros, desconhecidos até entrarem na casa, 24 horas por dia e também se dispor a participar de todas as provas que, na maioria das vezes, são as causadoras de discórdias.

E essa oitava edição, em específico, não deixou a desejar, até porque a produção trabalhou muito bem para alcançar a quase perfeição. As provas foram criadas de maneira a desenvolver assunto entre eles por um bom tempo. E a edição do programa foi muito eficaz, concretizando a manipulação dos confinados e dos telespectadores, e ainda mostrando a ideologia da empresa, no caso, a Rede Globo.

É perceptível como a emissão gira em torno da teoria hipodérmica da comunicação, aquela que joga muitas informações para uma massa passiva, onde se encaixa com a teoria do agenda-setting, que mostra o poder dos mass media em controlar a sociedade. Programando a vida de milhões de pessoas, paralisando-as em determinados momentos para assistir a algum programa. A prova disso está na importância que o público dá ao reality show, deixando sempre o horário das 22h livre. Ou então, no término do confinamento, sempre existem alguns telespectadores que ainda esperam acontecer alguma coisa naquele horário.

Quanto aos participantes, tivemos algumas peças chave como o psiquiatra Marcelo, grande causador de intrigas e discussões na casa, a brasiliense Thati, com a explosiva notícia da sua sexualidade, Gyselle e o seu passado obscuro e os outros, considerados figurantes, mas em papéis importantes. Marcelo, que tentou se comunicar com todos, mas ao longo do programa analisou o perfil de cada um, descobriu as fofocas e falsidades, foi quando se distanciou da maioria, se “isolando” junto de Gyselle, adjetivada como a coitadinha, sempre deixada de lado. Porém, mostrou quem realmente com o passar do tempo e evidenciou para que estava ali.

E não se pode esquecer o grande vencedor, Rafinha. Também o foco em vários momentos do reality show, conseguiu se aproximar de todos da melhor forma, ou seja, o bonzinho que impôs seu jeito e conseguiu ser respeitado dentro da casa, mesmo sendo alvo do psiquiatra em uma das discussões.

Muitos falam que não é possível chegar ao fim do programa com supostas interpretações, mas penso que as máscaras podem permanecer até o final, até porque lá dentro os participantes não falam tudo que sentem realmente, e, sim, guardam muitas sensações que, se não estivessem lá, teriam posto para fora com muita espontaneidade. Já em relação à mudança de atitudes ou valores que acontecem com os confinados, alguns valores se transformam de fato, pois a convivência obrigatória e teoricamente harmônica com desconhecidos faz com que repensem em muitas coisas, que, se não tivessem passado por tal experiência, não reagiriam como de agora em diante.

Se a fama ajuda nessa mudança? Não tenho tanta certeza. Em certa parte até colabora, mas não é o fator principal. É algo explosivo, rápido, que, dependendo de quem seja, pode durar mais. Pois sim, o reality show serve também para dar aquele empurrãozinho na carreira dos ex-participantes que efetivamente desejam ficar no meio das estrelas de tevê.

Afinal de contas, quanto cobrar?

Arquivado em: Crônica — Sérgio de Sá @ 11:05

Por Luiz Henrique Quemel

          Era outubro de 1994 quando consegui meu primeiro cliente. Tudo bem que a profissão de consultor doméstico de informática era tão nova que sempre aparecia umas crises de identidade, mas não saber cobrar a prestação do serviço foi a pedra no meu sapato. Foram meus próprios clientes que me ajudaram a superar esse complexo de inferioridade financeira que teimava em não desencarnar de mim.
          – Quanto que te devo?
          Essa foi a pergunta mais difícil que tive de responder para meu primeiro cliente. Como você sai de sua residência em pleno feriado de Nossa Senhora Aparecida e não sabe o quanto vai cobrar por uma consultoria? Só os profissionais sabem exatamente o valor do seu trabalho.
          – É Cr$ 41.250.
          – OK, mas não seria melhor convertermos em reais?
          – Sim, claro, desculpe. Fica então R$ 15.
          Recebi o valor, mas nervoso, porque levei mais de quatro horas para dar uma geral no computador, um PC AT Pentium 100 com 64 megabytes de RAM e disco rígido de 8GB. Entreguei a segunda via do relatório de avaliação técnica e fui comemorar dentro do meu Voyage 1986 num posto de gasolina:
          – Pode colocar Cr$ 13.750 de álcool?
          – São R$ 5, senhor.
          Ainda tinha Cr$ 27.500, ou melhor, R$ 10 quando comecei a calcular as despesas e o programa Excel em sua versão 5.0 começava a apresentar cada vez mais números vermelhos. Fiquei 240 minutos para receber apenas R$ 15 (finalmente, eu cai na real ou no real). Havia recebido apenas R$ 3,75 (três reais e setenta e cinco centavos) por hora de trabalho.
          O primeiro prejuízo, ninguém esquece. E deu vontade de ser o último, sem possibilidade de se ter uma segunda chance para se causar uma primeira boa impressão. Entrei em depressão, mas não revelei o desastre na auto-estima muito mais do que no bolso.
          Com a chegada dos 30 anos de vida, junto veio a compulsiva obsessão de saber, afinal de contas, quanto cobrar.
          Foram quase 10 anos comprando livros e estudando a questão, mas até consegui chegar ao estado da arte na ciência de como se cobrar serviços profissionais em informática, foram mais de mil horas de estudo. Para me aproximar do objeto, ainda tive que estudar economia de serviços, psicologia do cliente, comportamento do consumidor, empreendedorismo, métodos e metodologia de consultoria e inteligência de negócios. Na mesma proporção que os clientes aumentavam, maior ficava também minha insegurança em cobrar um preço justo, sem me sentir novamente com aquele complexo de inferioridade profissional. Não foi Kotler nem Drucker que me ajudaram a resolver o problema. Ele foi resolvido de forma inusitada: pelos meus clientes.
          Foi o doutor Alano Maranhão quem primeiro diagnosticou o problema:
          – Com esses preços que você pratica, acabará se prostituindo!
          Devia entender bem do assunto, pois era médico perito do Ministério do Trabalho. Outro doutor que não era médico, mas que ajudou a calcular meus honorários, foi Alexis Stepanenko, que dizia que eu era festejado pelos péssimos clientes e me surpreendeu ao aconselhar a demitir clientes. Os aproveitadores e péssimos pagadores, é claro. Os meus professores universitários tiveram uma outra forma de pagar meus honorários: parte em dinheiro e parte em atendimento VIP em minhas dificuldades acadêmicas. Foi assim até sair em 1998 do curso de Serviço Social na Universidade de Brasília (UnB).
          Ao olhar para o caminho deixado em minha jornada para obter a cobrança justa dos honorários, e pelo material construído com rigor científico, calculo que a cada dois anos em paralelo às minhas buscas sobre quanto cobrar acabei por fazer dois mestrados e um doutorado informal nas disciplinas citadas acima. Abandonei no meio do caminho meu objeto: passou de um simples questionamento de quantum cobrar para o “como” cobrar, este envolvendo questões de método e metodologia.
          Atualmente acredito que cheguei ao estado da arte de cobrar: recebo também na forma de permuta e, em troca de meus serviços, o valor correspondente em diárias para minha família em hotéis fazendas.
          Penso até na aventura de escrever um livro em forma de crônica, narrando meus fracassos em busca do santo graal dos honorários de serviços profissionais, pois o mercado editorial está lotado de livros de auto-ajuda sobre o sucesso. Fracassos são ideais para se introduzir novas metodologias. Evitaríamos assim que os novos profissionais que chegam ao mercado desviem em tempo hábil das armadilhas em que caí ao longo da jornada. Tenho até um título: “Afinal, quanto não cobrar por serviços profissionais em informática?”

Segunda-feira, 17 Março dUTC 2008

O santuário da nossa Amazônia

Arquivado em: Crônica — Sérgio de Sá @ 10:07

Por Maita Rocha 

         Quando penso no fato de a Amazônia estar sendo destruída cada dia mais, a primeira idéia que vem à minha mente é que sobra consciência, mas falta PESO na consciência e atitude de todos, não só de ONGs, mas sim de todo o Brasil, inclusive do governo brasileiro. Visto que a nossa Amazônia antes era verde e agora está ficando sem cor.

          Ao saber da frase do presidente da República, Lula, sobre a Amazônia – “NÃO SOMOS DAQUELES QUE DEFENDEM A AMAZÔNIA COMO SE FOSSE UM SANTUÁRIO DA HUMANIDADE” –, comecei a pensar bastante sobre ela. Mas a qual tipo de santuário nosso presidente se referiu?

          Ela pode ser considerada um santuário de aves, pois é comprovada a sua magnitude em relação à quantidade de belos pássaros vivendo naquela imensidão verde. Outras espécies estão sendo estudadas e descobertas.

          Pode ser um santuário de plantas, já que a floresta amazônica equivale a 33% das florestas tropicais do mundo. Tem uma diversidade de flora incrível: cada árvore, cada flor, cada folha representa um verde incrível e um colorido deslumbrante.

          A Amazônia representa 30% das espécies conhecidas do planeta. Um local, entretanto, em que se escondem diversidades de animais e uma flora que ainda não conhecemos. Atualmente, a área total morta pelo desmatamento da floresta corresponde a mais de 350 mil km², a um ritmo de 20 hectares por minuto, 30 mil por dia e 8 milhões por ano, e que acelera cada vez mais. A Amazônia deve ser considerada um santuário, sim, por conseguir sobreviver tanto tempo assim e sendo cada dia mais explorada.

          Mas se é um santuário, deve ser respeitada e “intocada”, mas isso seria, isso É IMPOSSÍVEL. Como ela é nossa, temos o direito de tocar e usufruir dela, mas o que é nosso a gente cuida e não destrói. Então, ela pode ser considerada um bem brasileiro, o qual deve ser cuidado, cultivado e apreciado por pessoas do mundo inteiro.

          Um santuário não pode ser explorado, derrubado, acabado e, dependendo da “crença”, nem ao menos tocado. Qual será o significado de Santuário da nossa Amazônia? Um santuário de fauna e flora, de águas e riquezas, um templo que transmite paz, alegria, esperança? É, pode ser considerada assim, intocável no sentido destruidor, mas explorada pelo olhar de grandes curiosos e apreciadores seres humanos.

Segunda-feira, 10 Março dUTC 2008

God save the queen

Arquivado em: Crítica — Sérgio de Sá @ 13:00

Por Natalia Valle Lacerda

          Um ótimo exemplo para mostrar as melhores maneiras de tomar determinadas decisões de um reinado está no novo filme Elizabeth: A rainha de ouro. Um longa-metragem com 114 minutos de duração, dirigido por Shekhar Kapur e contracenado por grandes nomes de Hollywood como Cate Blanchett (Elizabeth I), Clive Owen (Sir Walter Raleigh), Samantha Morton (Mary Stuart), Geoffrey Rush (Sir Francis Walsingham) e Jordi Mollá (Felipe II).

          Ele foi procedido do filme Elizabeth, lançado em 1998 e dirigido pelo mesmo Shekhar Kapur. O longa ganhou o Oscar de melhor maquiagem e foi indicado para diversos prêmios, como melhor figurino, direção de arte e fotografia.

           A história do segundo Elizabeth se passa em 1585 e retrata as três décadas incompletas de poder da rainha na Inglaterra. Uma época em que o catolicismo fundamentalista estava instalado na Europa, tinha Felipe II como líder, que, por sinal, possuía todo o apoio do Vaticano e era acobertado pela inquisição. Com isso, pretendia-se conquistar o trono da rainha, uma protestante assumida, e restaurar o catolicismo na Inglaterra.

          No desenrolar da trama, Elizabeth I procura as melhores soluções para tantos conflitos e, de repente, se confronta com um aventureiro, Sir Walter, que lhe causa uma imensa vulnerabilidade, por conta de um futuro amor proibido. Nisso, vários fatores aparecem na história que acabam afastando um do outro. Porém, fica na memória da rainha um súdito que não era apenas mais uma pessoa que estava sempre a sua disposição, e sim um homem, acima de tudo, que sabia muito bem como lidar com as palavras e com o coração das mulheres.

          Desde o primeiro filme, foi perceptível o cuidado com a preparação, pois foi necessária uma grande sintonia entre os diretores de fotografia, de arte, de produção e o diretor para conseguirem tal realização entre elenco e equipe técnica em geral. E o maior retorno foi pelo simples fato de obter algumas indicações ao Oscar, tanto de 1999 quanto de 2008, e conseguir premiações como Globo de Ouro, Bafta e em festivais.

          Elizabeth: A rainha de ouro é recomendado principalmente para quem gosta de histórias de época como os recentes O perfume, baseado no romance homônimo de Patrick Süskind, que gerou muitos comentários e elogios, e Primo Basílio, adaptação do clássico de Eça de Queirós, lançado nos cinemas em 2007.

          O paquistanês Shekhar Kapur, especializado em dramas, obteve mais sucesso e retorno com Elizabeth: A rainha de ouro, pois soube mostrar a verdadeira história entrelaçada à realidade íntima da rainha da Inglaterra, com sutileza e sabedoria. Além de Elizabeth, dirigiu outros quatro longas, entre eles, Honra e coragem: A quatro plumas, de 2002. O filme, que conta a história de um soldado que deixou o exército e vai à África resgatar um colega, não alcançou o objetivo esperado, não atingiu o mundo comercial da melhor maneira.

          Kapur ainda precisa melhorar alguns aspectos, como a escolha do elenco em geral. Afinal, em Elizabeth, sobrou para Cate Blanchett ficar com a grande responsabilidade de gerar suspiros e emoção em quem assiste. Mesmo com todas as indicações de melhor atriz para Blanchett, o filme ganharia ainda mais prêmios se as ações dos atores não fossem tão forçadas.

Livro revela enigma da profissão de jornalista

Arquivado em: Resenha — Sérgio de Sá @ 12:52

Por Luiz Henrique Quemel

Estou formado, e agora? É a pergunta que se faz ao término do curso de jornalismo e grande parte dos jovens bacharéis em comunicação social não sabe respondê-la. Durante quatro ou cinco anos, a faculdade nos preparou para o emprego, principalmente aquele que não mais existe, nas redações de jornal, nas emissoras de televisão e rádio. Emprego no sentido pleno, com direito a férias, 13º, plano de saúde e outros benefícios. Seguindo a tendência de mercado, temos um enigma a ser decifrado: no futuro teremos muitos postos de trabalho, mas com poucas vagas de emprego.

É essa charada que o livro Jornalismo freelance – Empreendedorismo na comunicação, de João Marcos Rainho (Summus Editorial, 128 páginas, R$ 27,10), tenta resolver. A obra consegue transitar no espinhoso caminho entre o jornalismo impresso e a assessoria de imprensa com reflexões para ambos os casos, em que o profissional é convidado a militar. Original e escrita fora dos circuitos acadêmicos, a obra consegue falar sobre empreendedorismo na comunicação. O autor pisa em ovos e, de maneira sutil, expõe os bastidores tanto do jornalismo impresso quanto das assessorias de imprensa. Não é um livro de auto-ajuda: combate e expõe a diferença entre o trabalho do freelancer (sem vínculo empregatício) profissional e o freelance (trabalho independente) precário disfarçado sob a forma de empreendedorismo. Não há fórmulas prontas. O capítulo sobre como cobrar, por exemplo, tem apenas quatro parágrafos, o que incita o leitor a buscar sua própria forma de remuneração.

Não pense encontrar só dicas, técnicas e truques para se dar bem nessa forma de atuação, mas também reflexões oriundas de mestres como Peter Ducker (administração) e Fernando Dolabela (empreendedorismo). João Marcos Rainho não só ensina a pescar as idéias como também entrega o peixe ainda fresquinho para a devida degustação. Mostra que existem, além dos empregos, outras alternativas para a inserção no mercado de trabalho e, para os veteranos, outras possibilidades de um recomeço. Desfaz, inclusive, a confusão conceitual entre emprego e trabalho.

O livro apresenta o caminho das pedras de quem percorreu todos eles, mas é preciso cautela para que os leitores não confundam as reflexões com receitas de bolo. Nesse sentido, é bom saber a quantas anda nossa trajetória profissional, pois, dependendo de nossa escolha, precisaremos terraplanar a estrada ou tão-somente pavimentá-la.

O livro deverá se tornar bibliografia básica nos cursos de jornalismo, principalmente na disciplina Empreendedorismo na Comunicação, obrigatória em algumas instituições de ensino superior. Para o estudante e o recém-formado, é bussola para orientação do profissional numa perspectiva autônoma. Para os veteranos, uma forma de ter um plano B na carreira. Serve ao mesmo questionamento do início: estou desempregado, e agora?

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