OpinAtivo

Segunda-feira, 28 Abril dUTC 2008

As descobertas de Clarice Lispector

Arquivado em: Resenha — Sérgio de Sá @ 09:54

Por Maita Rocha

Aprendendo a viver é um livro que reúne diversas crônicas escritas por Clarice Lispector na década de 1970, as quais revelam mais seu íntimo, sua própria vida. Pedro Karp Vasquez foi quem organizou o livro e suas crônicas. A editora Rocco comemora os 40 anos de publicação de A paixão segundo G.H., que hoje é um clássico literário brasileiro.

Aprendendo a viver é realmente em primeira pessoa, a pessoa de Clarice Lispector. A escritora detalha momentos marcantes de sua vida. Com os mais variados temas, revela suas particularidades, seu cotidiano, especificando sua criatividade.

            Os textos foram publicados primeiro no Jornal do Brasil, entre os anos de 1967 e 1973. Clarice assinava crônicas semanalmente. E simplesmente viajava no contexto de seus textos, discutindo acontecimentos recentes (à época). Gostava de falar sobre a existência, filosofar, mostrava o cotidiano, e ainda colocava trechos de seus romances ainda inéditos.

            Inicialmente, todos esses textos foram publicados no livro A descoberta do mundo, em 1984. Tempos depois a editora Rocco selecionou as crônicas mais profundas de Clarice, as que mais falavam dela e dos acontecimentos de sua vida. Faz assim uma obra delicada, podendo ser tratada como autobiografia: “aprendendo a viver”.

“Ser intelectual é usar, sobretudo, a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto”, diz a autora, já que não se considerava culta, pois não lia muito. Ao ler o livro vamos descobrindo coisas sobre Clarice. Descobrimos que, mesmo casada e com filhos, ela passa as noites de Natal com uma amiga “solitária”, em restaurantes lotados, para mostrar que ela não é a única sozinha no mundo.

A escritora tem o poder de transformar o banal e o normal num texto louco. Ao falar sobre uma simples poeira no ar, faz chegar ao ponto de refletir sobre a poeira, sobre a vida e seus acontecimentos, como amor, morte, verdade e mentira, infinito, reencarnação…

“Vi a Esfinge. Não a decifrei. Mas ela também não me decifrou. Encaramo-nos de igual para igual. Ela me aceitou, eu a aceitei. Cada uma com o seu mistério.” O mistério que cada pessoa tem em si, se analisarmos, cada um de nós é uma esfinge ou um turista curioso, mesmo olhando para o espelho, não sabemos nos desvendar.

“Comecei a mentir por precaução, e ninguém me avisou do perigo de ser tão precavida; porque depois nunca mais a mentira descolou de mim. E tanto menti que comecei a mentir até a minha própria mentira. E isso – já atordoada eu sentia – isso era dizer a verdade. Até que decaí tanto que a mentira eu a dizia crua, simples, curta: eu dizia a verdade bruta”, narra Clarice.

          Todos os seus textos nem precisam ser analisados a fundo. Falam, retratam uma verdade que está em cada um de nós, uma verdade que pode ser mentira, ou uma mentira que de tão mentirosa se torna nossa fantasia, fazendo assim com que esqueçamos da nossa realidade, vivendo em um mundo obscuro e irreal, que torna tudo claro e gostoso de viver, viver intensamente, cada minuto, cada palavra, cada significado, assim como Clarice Lispector (exceto a parte de comer a barata em A paixão segundo G.H., no mais é tudo muito bom).

1 Comentário »

  1. como fala a Clarice , mentia a propria mentira,as vezes o ser humano é assim,e mim vejo como ela, fingindo sua realidade.

    Comment por mariagabrielle1 — Domingo, 1 Junho dUTC 2008 @ 15:43


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