Por Leila Lucas
Ontem, em uma roda de amigos, discutíamos se já havia uma versão no estilo funk para alguma música da bossa nova. Cinqüenta anos dela e cada vez mais nos surpreendem com novos arranjos e ritmos. Agora, até música eletrônica.
Citamos alguns dos novos intérpretes, Nara Takai, codinome usado por uma brincadeira feita pelos fãs de Fernanda Takai, vocalista da banda Pato Fu, depois do seu projeto solo, o CD Onde brilhem os olhos seus, em que canta o repertório de Nara Leão, conhecida cantora da bossa. Nara foi musa e ícone da bossa nova. Era muito tímida, mas nos palcos conseguia esquecer esse pequeno detalhe. Não tinha uma voz estrondosa que alcançasse um alto acorde, porém com seu timbre suave, tranqüilo, afetava os fãs em seu íntimo. Atrelou sua carreira a compositores desconhecidos, com origem diferentes da dela. Conseguiam uma sintonia inexplicável. Zé Ketti foi um deles. Para Nara, a música transpunha barreiras. Todos eram uma coisa só.
Na comemoração de mais um da bossa, Fernanda teve a idéia de cantar Nara. Com uma voz parecida, tudo propiciou esse esplendoroso trabalho. Não ficou só no banquinho e com um violão como os cantores da época. Acrescentou sons de guitarra, bateria, baixo e novos arranjos. Fernanda Takai afirmou: “Músicas que ouvíamos com nossos pais, agora mostrados com uma roupagem nossa”.
Cris Dellano fez um disco também sobre Nara Leão, para lembrar os dez anos de morte da cantora. Aos 5 anos de idade, Cris já participava do coro infantil nas temporadas líricas do Teatro Municipal. Aos 17, acompanhava Roberto Menescal nos seus trabalhos. Foi para os Estados Unidos, onde participou como solista de um coral gospel. Chegou a participar da gravação de um CD do grupo. Quando voltou ao Brasil fez um lançamento independente do CD-book Mais que nunca é preciso cantar. Enquanto dava aulas e fazia shows foi convidada pela diretora Solange Kafuri para fazer o CD que homenageava Nara: Uma senhora Opinião. Agora com o filho de seu mentor, Márcio Menescal, ingressa no projeto de adequar bossa à música eletrônica. Bossacucanova é o nome do grupo carioca conhecido por acrescentar um toque atual à tradição do samba e da bossa. Além de Márcio e Dellano, integram o grupo Alexandre Moreira (tecladista), o DJ Marcelinho DaLua, DadoBrother (percussão), Rodrigo Sha (sax e flauta) e Flávio Mendes (guitarra).
Há dois lados sobre a bossa nova: quem gosta só das versões originais e os que adoram roupagens diferenciadas. Mas o que importa, considero, é que ela não morra, não seja esquecida. A bossa surgiu no final da década de 1950 e passou a pode ser compartilhada e conhecida internacionalmente. Tom Jobim foi representante da nossa música lá fora e teve parcerias memoráveis como a que fez com Frank Sinatra. Nada substitui o Acender as velas e Opinião na voz de Nara Leão ou O barquinho à Elis Regina. Ficaríamos citando o dia inteiro o que não daria para copiar, recriar, quem dirá repaginar. Mas como as novas gerações a conheceriam? Envolvendo-a com outros ritmos, poderemos aproximar a geração jovem à passada. Novos intérpretes sempre existirão. Contanto que o objetivo de não esquecê-la perdure, voltaremos sempre a lembrar de como eram aqueles tempos.