Por Luiz Henrique Quemel
“[...] Se apenas um único jovem do Texas ou outro estado qualquer se sentir inspirado a cursar jornalismo e seguir os passos deixados por Edward Roscoe Murrow, o filme já terá valido a pena.” Com esse diálogo. o diretor do filme Boa noite e boa sorte, George Clooney, encerra a seqüência de comentários junto com roteirista Grant Heslov. Em forma de documentário preto e branco, o filme mostra o embate entre o jornalista Ed Murrow (interpretado pelo ator David Strathairn) e o senador Joseph McCarthy (interpretado por ele mesmo).
Nas décadas de 1940 e 50, o senador do estado do Wisconsin empreendeu uma caça aos comunistas. Boa noite, boa sorte, mas já vi esse filme poderia ser a versão brasileira do tema por retratar os mesmos fatos ocorridos após o golpe de 1964 no Brasil. Boa noite e boa sorte é uma obra que pode ser vista tanto em 1960 ou em 2008 que não perde a atualidade. Um senador da República que mesmo cometendo crimes, sejam eles de quaisquer naturezas, recebe uma advertência do Senado para deixar os holofotes. Qualquer semelhança da obra baseada em fatos reais não terá sido mera coincidência, caso fosse o set de filmagens determinado Congresso localizado abaixo da linha do Equador.
O filme mostra o cotidiano da CBS. A televisão ainda engatinhava como mídia de comunicação. Não há clichês e nem diálogos enfadonhos, mas ver o making of da edição em DVD torna a segunda sessão do filme muito mais interessante e divertida. Ambientado nos anos 50, o filme levanta muitas questões, não só políticas, e representa, sob a forma de diálogos, aulas de jornalismo. Mostra ser possível praticar o jornalismo político, sem ser partidário.
Na pele do jornalista Ed Murrow, David Strathairn mostra que o engajamento não pode ser ingênuo, como bem mostra o comercial dos cigarros Kent: nem sempre o melhor filtro é o que leva o melhor fumo. Murrow nunca fumou Kent, colocava os cigarros Pall Mall no pacote do concorrente. Às vezes é preciso fazer concessões em forma de propagandas, publicidade (vale até entrevistar Ricos & Famosos, ao estilo Ricardo Patrese) e sapos a engolir para que a notícia apareça. O filme expõe de forma clara que a tese da neutralidade, como querem alguns teóricos, não passa de uma grande falácia. A CBS mostra claramente qual é o seu lado.
Ed. Murrow não precisou ser demitido de famosa rede de televisão para começar a praticar “jornalismo independente” e nem cunhou o termo pIG (Partido da Imprensa Golpista) para mostrar a seriedade do seu trabalho. Sempre foi respeitado e isso o manteve acima dos ataques (abaixo da linha da cintura) pessoais do senador McCarthy.
A obra mostra que fazer jornalismo sério e independente também depende do que fizemos antes de nascer. Para o macarthismo, jornalistas, independentes de seus credos religiosos, que foram pegos nas últimas encarnações lendo O capital, de Karl Marx, podem ser acusados de comunistas e sofrerem os mesmos processos arbitrários a que foram submetidos Murrow e sua equipe.
O filme encerra-se com o discurso de Edward R. Murrow questionando para que serve a tevê, a fim de não se tornar apenas uma caixa de fios e controles. Ao buscar em fatos reais há mais de 50 anos e ao se refletir o que se tornou a mídia em tempos de dossiês, senadores, segredos vazados, relações incestuosas com anunciantes e patrocinadores, não seria difícil realizar uma versão adaptada para a realidade brasileira, mas com sugestivo nome: Boa noite, boa sorte, mas já vi esse filme.