OpinAtivo

Segunda-feira, 2 Junho dUTC 2008

Boa noite, boa sorte, mas já vi esse filme

Arquivado em: Crítica — Sérgio de Sá @ 10:32

Por Luiz Henrique Quemel

 

“[...] Se apenas um único jovem do Texas ou outro estado qualquer se sentir inspirado a cursar jornalismo e seguir os passos deixados por Edward Roscoe Murrow, o filme já terá valido a pena.” Com esse diálogo. o diretor do filme Boa noite e boa sorte, George Clooney, encerra a seqüência de comentários junto com roteirista Grant Heslov. Em forma de documentário preto e branco, o filme mostra o embate entre o jornalista Ed Murrow (interpretado pelo ator David Strathairn) e o senador Joseph McCarthy (interpretado por ele mesmo).

Nas décadas de 1940 e 50, o senador do estado do Wisconsin empreendeu uma caça aos comunistas. Boa noite, boa sorte, mas já vi esse filme poderia ser a versão brasileira do tema por retratar os mesmos fatos ocorridos após o golpe de 1964 no Brasil. Boa noite e boa sorte é uma obra que pode ser vista tanto em 1960 ou em 2008 que não perde a atualidade. Um senador da República que mesmo cometendo crimes, sejam eles de quaisquer naturezas, recebe uma advertência do Senado para deixar os holofotes. Qualquer semelhança da obra baseada em fatos reais não terá sido mera coincidência, caso fosse o set de filmagens determinado Congresso localizado abaixo da linha do Equador.

O filme mostra o cotidiano da CBS. A televisão ainda engatinhava como mídia de comunicação. Não há clichês e nem diálogos enfadonhos, mas ver o making of da edição em DVD torna a segunda sessão do filme muito mais interessante e divertida. Ambientado nos anos 50, o filme levanta muitas questões, não só políticas, e representa, sob a forma de diálogos,  aulas de jornalismo. Mostra ser possível praticar o jornalismo político, sem ser partidário.

Na pele do jornalista Ed Murrow, David Strathairn mostra que o engajamento não pode ser ingênuo, como bem mostra o comercial dos cigarros Kent: nem sempre o melhor filtro é o que leva o melhor fumo. Murrow nunca fumou Kent, colocava os cigarros Pall Mall no pacote do concorrente. Às vezes é preciso fazer concessões em forma de propagandas, publicidade (vale até entrevistar Ricos & Famosos, ao estilo Ricardo Patrese) e sapos a engolir para que a notícia apareça. O filme expõe de forma clara que a tese da neutralidade, como querem alguns teóricos, não passa de uma grande falácia. A CBS mostra claramente qual é o seu lado.

Ed. Murrow não precisou ser demitido de famosa rede de televisão para começar a praticar “jornalismo independente” e nem cunhou o termo pIG (Partido da Imprensa Golpista) para mostrar a seriedade do seu trabalho. Sempre foi respeitado e isso o manteve acima dos ataques (abaixo da linha da cintura) pessoais do senador McCarthy.

A obra mostra que fazer jornalismo sério e independente também depende do que fizemos antes de nascer. Para o macarthismo, jornalistas, independentes de seus credos religiosos, que foram pegos nas últimas encarnações lendo O capital, de Karl Marx, podem ser acusados de comunistas e sofrerem os mesmos processos arbitrários a que foram submetidos Murrow e sua equipe.

O filme encerra-se com o discurso de Edward R. Murrow questionando para que serve a tevê, a fim de não se tornar apenas uma caixa de fios e controles. Ao buscar em fatos reais há mais de 50 anos e ao se refletir o que se tornou a mídia em tempos de dossiês, senadores, segredos vazados, relações incestuosas com anunciantes e patrocinadores, não seria difícil realizar uma versão adaptada para a realidade brasileira, mas com sugestivo nome: Boa noite, boa sorte, mas já vi esse filme.

 

 

Segunda-feira, 28 Abril dUTC 2008

Julio Iglesias emociona Brasília

Arquivado em: Crítica — Sérgio de Sá @ 08:40

Por Maita Rocha

 

O cantor Julio Iglesias, após 10 anos sem pisar em palcos brasileiros, voltou ao país para sua única turnê, com o tema “A voz universal”. Dentre muitas capitais, Brasília foi a quarta a ter a presença do astro.

         No dia 12 de março, Brasília se movimentou até o Centro de Convenções Ulisses Guimarães. Todo o salão escureceu cinco minutos antes da hora marcada e pontualmente às 21h o cantor subiu ao palco, entre aplausos e gritos dos que conseguiram chegar na hora. As luzes acesas do fundo do palco lembravam um céu estrelado, o que trouxe ao público um ar a mais de romantismo.

Quando o show começou, ainda havia cadeiras vazias. Um engarrafamento na entrada do estacionamento do Centro de Convenções atrapalhou as pessoas que tentavam chegar ao local.

Após cantar algumas músicas, antigas e de seu novo álbum, Iglesias se sentou e começou a conversar com as pessoas ali presentes, divertiu e encantou o público. Nesse momento o Centro de Convenções já estava lotado. Todos que conheciam um Julio Iglesias tímido se surpreenderam com a normalidade em que o astro ficou no palco.

O cantor tem em sua carreira um total de 77 álbuns e mais de 250 milhões de discos vendidos em todo o mundo, em 14 idiomas. Já recebeu 2,6 mil discos de ouro e platina e fez mais de cinco mil concertos pelo mundo. Mesmo com toda uma carreira consolidada, Iglesias passou uma década sem pisar em solos brasileiros.

Por ser um cantor que anima e emociona todo um público há décadas, não se imaginava um show tão lotado e tão esperado por diversas faixas etárias. O público que predominou no show era maior de 40 anos, muitos senhores e senhoras assistindo e relembrando suas juventudes. Havia jovens, que a princípio pareciam somente estar acompanhando os pais ou avós, mas no decorrer do show percebia-se que sabiam todas as letras e também cantavam com emoção.

Iglesias arrancou suspiros e aplausos, sem contar com risos quando conversava com o público. Entre suas canções, estavam Manuela, Natalie e La Carretera, com as quais o público de Brasília fez grande e bonito coral. O cantor ficou emocionado com o amor e a alegria do povo de Brasília: “Canta, Brasília”, dizia Iglesias.

Antes do show, muitos diziam que os espectadores de Brasília seriam “um público comportado”, mas não foi nada disso o que aconteceu. As pessoas interagiram muito bem com o cantor, cantaram, aplaudiram e até gritinhos de “lindo” surgiram no meio do show.

Ao conversar com os fãs, Iglesias foi se sentindo mais à vontade. Contou sobre a primeira vez que veio ao Brasil com seu pai, que andava com uma camiseta escrita “Sou pai de Julio Iglesias”. Assim, passeava por Copacabana, no Rio de Janeiro, rodeado por lindas mulheres. O cantor, restrito como sempre, teve um comportamento natural e divertido com o público de Brasília – mesmo que tenha se restringido a tirar foto somente com o vice-governador do Distrito Federal, Paulo Octávio, e a não aceitar nenhum convite de jantar, feitos por políticos do DF.

Muitas pessoas sentiram falta da música Devaneios, mas Iglesias encantou o público com todas as músicas e com as danças que aconteciam no palco. O dueto com uma de suas backing vocals, em All of you, foi lindo. Até beijar a outra vocalista ele fez, o que surpreendeu todo o público.

Ao contrário do que um jornal disse sobre o show em São Paulo, quando o público só teria “acordado” nas últimas músicas, Brasília mostrou que também sabe apreciar e se divertir com cantores internacionais. Já na primeira música, Julio Iglesias foi bem recebido. Na segunda ou terceira, colocou as pessoas de pé.

Muitos diziam que, além de incrível, o show deixou um gosto de quero mais. Quem sabe, ao ver toda a alegria desse povo da capital do país, Julio Iglesias não queira retornar ao Planalto Central?

Segunda-feira, 10 Março dUTC 2008

God save the queen

Arquivado em: Crítica — Sérgio de Sá @ 13:00

Por Natalia Valle Lacerda

          Um ótimo exemplo para mostrar as melhores maneiras de tomar determinadas decisões de um reinado está no novo filme Elizabeth: A rainha de ouro. Um longa-metragem com 114 minutos de duração, dirigido por Shekhar Kapur e contracenado por grandes nomes de Hollywood como Cate Blanchett (Elizabeth I), Clive Owen (Sir Walter Raleigh), Samantha Morton (Mary Stuart), Geoffrey Rush (Sir Francis Walsingham) e Jordi Mollá (Felipe II).

          Ele foi procedido do filme Elizabeth, lançado em 1998 e dirigido pelo mesmo Shekhar Kapur. O longa ganhou o Oscar de melhor maquiagem e foi indicado para diversos prêmios, como melhor figurino, direção de arte e fotografia.

           A história do segundo Elizabeth se passa em 1585 e retrata as três décadas incompletas de poder da rainha na Inglaterra. Uma época em que o catolicismo fundamentalista estava instalado na Europa, tinha Felipe II como líder, que, por sinal, possuía todo o apoio do Vaticano e era acobertado pela inquisição. Com isso, pretendia-se conquistar o trono da rainha, uma protestante assumida, e restaurar o catolicismo na Inglaterra.

          No desenrolar da trama, Elizabeth I procura as melhores soluções para tantos conflitos e, de repente, se confronta com um aventureiro, Sir Walter, que lhe causa uma imensa vulnerabilidade, por conta de um futuro amor proibido. Nisso, vários fatores aparecem na história que acabam afastando um do outro. Porém, fica na memória da rainha um súdito que não era apenas mais uma pessoa que estava sempre a sua disposição, e sim um homem, acima de tudo, que sabia muito bem como lidar com as palavras e com o coração das mulheres.

          Desde o primeiro filme, foi perceptível o cuidado com a preparação, pois foi necessária uma grande sintonia entre os diretores de fotografia, de arte, de produção e o diretor para conseguirem tal realização entre elenco e equipe técnica em geral. E o maior retorno foi pelo simples fato de obter algumas indicações ao Oscar, tanto de 1999 quanto de 2008, e conseguir premiações como Globo de Ouro, Bafta e em festivais.

          Elizabeth: A rainha de ouro é recomendado principalmente para quem gosta de histórias de época como os recentes O perfume, baseado no romance homônimo de Patrick Süskind, que gerou muitos comentários e elogios, e Primo Basílio, adaptação do clássico de Eça de Queirós, lançado nos cinemas em 2007.

          O paquistanês Shekhar Kapur, especializado em dramas, obteve mais sucesso e retorno com Elizabeth: A rainha de ouro, pois soube mostrar a verdadeira história entrelaçada à realidade íntima da rainha da Inglaterra, com sutileza e sabedoria. Além de Elizabeth, dirigiu outros quatro longas, entre eles, Honra e coragem: A quatro plumas, de 2002. O filme, que conta a história de um soldado que deixou o exército e vai à África resgatar um colega, não alcançou o objetivo esperado, não atingiu o mundo comercial da melhor maneira.

          Kapur ainda precisa melhorar alguns aspectos, como a escolha do elenco em geral. Afinal, em Elizabeth, sobrou para Cate Blanchett ficar com a grande responsabilidade de gerar suspiros e emoção em quem assiste. Mesmo com todas as indicações de melhor atriz para Blanchett, o filme ganharia ainda mais prêmios se as ações dos atores não fossem tão forçadas.

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