OpinAtivo

Segunda-feira, 28 Abril dUTC 2008

Para embarcar no jornalismo cultural

Arquivado em: Resenha — Sérgio de Sá @ 10:39

Por Luiz Henrique Quemel

 

São quatro capítulos que fazem uma radiografia do jornalismo cultural num determinado momento no espaço brasileiro. Na introdução fica claro o pensamento do autor, quando diz que o jornalismo cultural já não é mais o mesmo. Perda de espaço e consistência são os argumentos usados para justificar o objeto do livro. Propõe o autor que o jornalismo cultural tenha tratamento diferenciado e combata algumas questões que o tornam passíveis de mito, dentre os mais fortes, o de ser fácil de ser produzido.

Na obra resgata-se a trajetória do jornalismo cultural no mundo, principalmente o europeu e de origem norte-americana. Não é um tratado sobre a história do jornalismo cultural, e mesmo não entrando em nível de detalhamento se comparado aos outros dois, há uma breve exposição do que pode ter sido o jornalismo cultural brasileiro.

Daniel Piza, autor de Jornalismo cultural (Editora Contexto, 143 páginas, R$ 25,90), é contundente em afirmar que o jornalismo cultural vive a sua maior crise de identidade a partir do momento em que define algumas dicotomias tomadas como mitos.

Segundo Piza, o elitismo e o populismo, a erudição e o popular, o nacional e o internacional são falsos dilemas que precisam ser enfrentados a fim de que o jornalismo cultural deixe de ser jornalismo de segunda classe.

No capítulo III são expostos como funcionam as questões das críticas nos bastidores do cinema, teatro ou em festivais de música. Neste caso específico, há o “efeito manada”, conceito criado pelo jornalista Luis Nassif, segundo o qual quem discorda da maioria é considerado arrogante. No capítulo, o autor define diversos tipos de resenhas. Impressionistas, estruturalistas, centradas no autor e de cunho sociológico são descritas por Piza. Conclui que, seja qual for o estilo definido, o gênero literário deve manter o critério jornalístico: sinceridade, objetividade, preocupação com o autor e o tema. Cita ainda colunas de opinião e declara que reportagem em jornalismo cultural deve seguir os mesmos rigores de quaisquer outras matérias jornalísticas.

Com autoridade de quem já publicou um livro sobre o assunto, afirma que perfil e entrevistas são reportagens interpretativas, mas exigem bastante espaço para publicação. Criatividade seria o quesito, já que em seu outro livro (Perfis & entrevistas), Daniel entrevista Oscar Wilde, trabalho de ficção histórica que o autor considera imaginativo.

O autor arrisca-se a tecer 10 dicas quando se escreve reportagens para o jornalismo cultural. A receita de bola contempla a dica “Dê um fecho ao texto” como se convidasse à subversão da pirâmide invertida, como se o melhor devesse ser deixado para o final.

Na obra há espaço para diferenciar entre o mau e o bom jabá (de jabaculê). É nesse aspecto que a obra contribuiu para encerrar o meu preconceito sobre receber um livro enviado pela editora (bom jabá) e a propina paga para se falar bem da obra (mau jabá). Outro aspecto da crítica é o envolvimento pessoal entre crítico e criticado e a complacência daquele em nunca considerar uma obra, qualquer que seja, péssima ou ruim. Em critérios ímpares, regular seria o máximo da crítica depreciativa.

Com um sugestivo nome de “Aqueles foram os dias”, Piza exibe no último capítulo as suas experiências na Folha de S. Paulo, Estadão e principalmente na Gazeta Mercantil. São relatos que mostram que a formação consistente do profissional conta pontos em sua inserção no jornalismo cultural.

A mais interessante foi a passagem pela Gazeta Mercantil quando o suplemento de final de semana passou de seis para 14 páginas em formato tablóide. Piza mostra em cinco passos o caminho das pedras de como se fazer, no seu entendimento o bom jornalismo cultural. “Carta branca” para ele seria o item mais importante dado aos jornalistas para o sucesso na área cultural. Em época de concorrência acirrada com outras mídias, principalmente a internet, seria esse o nirvana dos jornalistas, mas não é o que acontece em épocas de contenção de gastos.

Ao longo da obra, o autor mostra ser possível fazer um excelente trabalho jornalístico também no aspecto da cobertura cultural, não ficando restrito a suplementos. Tece outras esperanças a despeito do trabalho bem-sucedido nos veículos por onde passou, mas ao encerrar a obra, na bibliografia comentada, cria uma espécie de currículo mínimo para o aspirante que tenha a pretensão de embarcar nessa viagem.

Ao comentar bibliografias, acaba por impor uma série de critérios que são exigidos para o iniciante que se aventura no jornalismo cultural. De imediato, a bagagem é muito pesada, mas pode ser construída ao longo da carreira. Talvez seja por isso que o autor mesmo sendo referência nacional no assunto, não é unanimidade, sendo maior o time de seus detratores, pela arrogância com que trata os temas. Em recente entrevista à revista Imprensa, pode-se concluir isso.

De leitura fácil, a obra é aconselhada para quem deseja se lançar ao desafio de encarar o jornalismo cultural seja com seus jabás, relacionamentos, mas principalmente pelo prazer de ser um bom texto, bússola capaz de pelo menos separar o joio do trigo nos tempos atuais. Com a síndrome do overload information (sobrecarga de informações), ter alguém que aponte caminhos alternativos já pode ser considerado uma luz no final do túnel, principalmente o da  ignorância cultural.

As descobertas de Clarice Lispector

Arquivado em: Resenha — Sérgio de Sá @ 09:54

Por Maita Rocha

Aprendendo a viver é um livro que reúne diversas crônicas escritas por Clarice Lispector na década de 1970, as quais revelam mais seu íntimo, sua própria vida. Pedro Karp Vasquez foi quem organizou o livro e suas crônicas. A editora Rocco comemora os 40 anos de publicação de A paixão segundo G.H., que hoje é um clássico literário brasileiro.

Aprendendo a viver é realmente em primeira pessoa, a pessoa de Clarice Lispector. A escritora detalha momentos marcantes de sua vida. Com os mais variados temas, revela suas particularidades, seu cotidiano, especificando sua criatividade.

            Os textos foram publicados primeiro no Jornal do Brasil, entre os anos de 1967 e 1973. Clarice assinava crônicas semanalmente. E simplesmente viajava no contexto de seus textos, discutindo acontecimentos recentes (à época). Gostava de falar sobre a existência, filosofar, mostrava o cotidiano, e ainda colocava trechos de seus romances ainda inéditos.

            Inicialmente, todos esses textos foram publicados no livro A descoberta do mundo, em 1984. Tempos depois a editora Rocco selecionou as crônicas mais profundas de Clarice, as que mais falavam dela e dos acontecimentos de sua vida. Faz assim uma obra delicada, podendo ser tratada como autobiografia: “aprendendo a viver”.

“Ser intelectual é usar, sobretudo, a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto”, diz a autora, já que não se considerava culta, pois não lia muito. Ao ler o livro vamos descobrindo coisas sobre Clarice. Descobrimos que, mesmo casada e com filhos, ela passa as noites de Natal com uma amiga “solitária”, em restaurantes lotados, para mostrar que ela não é a única sozinha no mundo.

A escritora tem o poder de transformar o banal e o normal num texto louco. Ao falar sobre uma simples poeira no ar, faz chegar ao ponto de refletir sobre a poeira, sobre a vida e seus acontecimentos, como amor, morte, verdade e mentira, infinito, reencarnação…

“Vi a Esfinge. Não a decifrei. Mas ela também não me decifrou. Encaramo-nos de igual para igual. Ela me aceitou, eu a aceitei. Cada uma com o seu mistério.” O mistério que cada pessoa tem em si, se analisarmos, cada um de nós é uma esfinge ou um turista curioso, mesmo olhando para o espelho, não sabemos nos desvendar.

“Comecei a mentir por precaução, e ninguém me avisou do perigo de ser tão precavida; porque depois nunca mais a mentira descolou de mim. E tanto menti que comecei a mentir até a minha própria mentira. E isso – já atordoada eu sentia – isso era dizer a verdade. Até que decaí tanto que a mentira eu a dizia crua, simples, curta: eu dizia a verdade bruta”, narra Clarice.

          Todos os seus textos nem precisam ser analisados a fundo. Falam, retratam uma verdade que está em cada um de nós, uma verdade que pode ser mentira, ou uma mentira que de tão mentirosa se torna nossa fantasia, fazendo assim com que esqueçamos da nossa realidade, vivendo em um mundo obscuro e irreal, que torna tudo claro e gostoso de viver, viver intensamente, cada minuto, cada palavra, cada significado, assim como Clarice Lispector (exceto a parte de comer a barata em A paixão segundo G.H., no mais é tudo muito bom).

Um clássico do jornalismo opinativo

Arquivado em: Resenha — Sérgio de Sá @ 09:18

Por Leila Lucas

 

                  O prefácio do livro Jornalismo opinativo foi escrito por Antonio F. Costella, que destaca a perenidade da obra de José Marques de Melo, considerando-o ícone das ciências da comunicação. Costella fala do respeito que existe por parte de seus colegas acadêmicos e de como Marque de Melo serve de referência àqueles que buscam conhecer os estudos sobre jornalismo em âmbito mundial.

                  Na apresentação, Marques de Melo escreve sobre a origem do jornalismo, os desafios dele e os bastidores da produção jornalística. Baseado na tese de doutorado defendida em 1983, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, o livro é indicado para estudantes, professores e interessados que queiram inteirar-se do assunto.

                  A obra tem 238 páginas, divididas em cinco capítulos: “Teoria do jornalismo”, “Gêneros jornalísticos”, “A expressão opinativa”, “Gêneros opinativos” e “Jornalismo opinativo: bibliografia essencial”. No final dos primeiros quatro capítulos, ele deixa temas para pesquisa e debate. Em notas de pé de página estão os números correspondentes à bibliografia no final, destinada aos curiosos e dando mais uma possibilidade ao estudante de assimilar o conteúdo.

                  No primeiro capítulo, “Teoria do jornalismo”, o autor lembra dos primeiros pesquisadores sobre jornalismo, da demora do início desses estudos, referindo-se à expressão jornalística somente nos séculos XVII, XVIII e XIX. Expõe a confusão entre os conceitos de jornalismo e jornal. Desmembra ainda a noção de jornalismo polivalente, a perspectiva da propaganda e as relações públicas como meio de persuasão. Para Marques de melo, o jornalismo real se contrapõe a essas duas últimas modalidades – um apelo ao imaginário e o inconsciente. A ascensão da burguesia nos livra da censura prévia e tem como conseqüência o imposto do timbre.  Na seqüência aparece a imprensa norte-americana, que transforma a informação em mercadoria. O autor reconhece as duas categorias do jornalismo: o informar e o opinar, e explica o sentido do político nesses dois ambientes.

                  No segundo capítulo, ele detalha o estudo dos gêneros jornalísticos, classificando-os. Explicita quem fez os estudos. Nos modelos europeus: jornalismo francês – Falliet e Krayser, jornalismo alemão – Dovifat, jornalismo italiano – Domenico de Gregório, jornalismo espanhol – Martin Vivaldi e Martinez Albertos. No modelo norte-americano: Fraser Bond. Nas classificações hispano-americanas: Juan Gargurevich. No modelo latino-americano, o argentino Eugenio Castelli e o boliviano Rivadeneira Prada. Nos estudos sobre os gêneros radiofônicos, o venezuelano Julio Cabello. Em Cuba, gêneros no rádio e na TV: Benítez. No Brasil, destaca os pesquisadores Walter Sampaio, Zeta de Andrade de Lima, Luiz Amaral, Juarez Bahia e Luiz Beltrão, considerado o mais importante, pois os outros fizeram apenas considerações, não um estudo aprofundado.

                  No terceiro capítulo, “A expressão opinativa”, novamente reclassifica o jornalismo em informativo e opinativo. Afirma que os dois trabalham de forma ligada aos interesses do Estado. Nos afastamos da raiz norte-americana quando não aceitamos a possibilidade de sermos totalmente imparciais e confirmamos o equívoco de Marx de que a mensagem jornalística é necessariamente politizante. Menciona a lei que o ex-ministro da Comunicação Social Said Farhat propôs: a responsabilidade das matérias seria dada aos jornalistas. Depois, Marques de Melo responde como ficou essa história. Relata a importância das pautas, fontes e o que aconteceu depois da guerra hispano norte-americana. Elementos como a tipografia e as manchetes tornaram-se primordiais à conquista do mercado. Ele ressalta a importância dos títulos, sua editorialização, seus tipos e os recursos mais usados para fazê-los.

                  No quarto capítulo, classifica os gêneros opinativos no Brasil: editorial, comentário, artigo, resenha ou crítica, coluna, crônica, caricatura e carta. Explica a importância de cada um e os compara. No quinto e último capítulo, “Jornalismo opinativo: bibliografia essencial”, o autor conclui ser mais justo para com seu leitor modificar o que era apêndice nas edições anteriores, uma pequena bibliografia, para um capítulo do livro, um acervo maior, visto que nossas bibliotecas só têm um vasto material a partir da década de 1990. Ao mesmo tempo instiga quem o leu a confrontá-lo com outros autores e a debaterem sobre o que foi explicitado. Ele deixa um endereço de e-mail para uma comunicação direta com aqueles que tenham interesses em comum com os dele.

                  Livro qualificado para falar do assunto, o autor realmente é um especialista em jornalismo opinativo. Quem o lê acaba com vontade de conhecer cada um dos pesquisadores citados, senão ficamos com a sensação de estarmos perdidos. Para entendermos a obra por inteiro, temos de dar continuidade ao estudo lendo as muitas referências informadas.

Segunda-feira, 10 Março dUTC 2008

Livro revela enigma da profissão de jornalista

Arquivado em: Resenha — Sérgio de Sá @ 12:52

Por Luiz Henrique Quemel

Estou formado, e agora? É a pergunta que se faz ao término do curso de jornalismo e grande parte dos jovens bacharéis em comunicação social não sabe respondê-la. Durante quatro ou cinco anos, a faculdade nos preparou para o emprego, principalmente aquele que não mais existe, nas redações de jornal, nas emissoras de televisão e rádio. Emprego no sentido pleno, com direito a férias, 13º, plano de saúde e outros benefícios. Seguindo a tendência de mercado, temos um enigma a ser decifrado: no futuro teremos muitos postos de trabalho, mas com poucas vagas de emprego.

É essa charada que o livro Jornalismo freelance – Empreendedorismo na comunicação, de João Marcos Rainho (Summus Editorial, 128 páginas, R$ 27,10), tenta resolver. A obra consegue transitar no espinhoso caminho entre o jornalismo impresso e a assessoria de imprensa com reflexões para ambos os casos, em que o profissional é convidado a militar. Original e escrita fora dos circuitos acadêmicos, a obra consegue falar sobre empreendedorismo na comunicação. O autor pisa em ovos e, de maneira sutil, expõe os bastidores tanto do jornalismo impresso quanto das assessorias de imprensa. Não é um livro de auto-ajuda: combate e expõe a diferença entre o trabalho do freelancer (sem vínculo empregatício) profissional e o freelance (trabalho independente) precário disfarçado sob a forma de empreendedorismo. Não há fórmulas prontas. O capítulo sobre como cobrar, por exemplo, tem apenas quatro parágrafos, o que incita o leitor a buscar sua própria forma de remuneração.

Não pense encontrar só dicas, técnicas e truques para se dar bem nessa forma de atuação, mas também reflexões oriundas de mestres como Peter Ducker (administração) e Fernando Dolabela (empreendedorismo). João Marcos Rainho não só ensina a pescar as idéias como também entrega o peixe ainda fresquinho para a devida degustação. Mostra que existem, além dos empregos, outras alternativas para a inserção no mercado de trabalho e, para os veteranos, outras possibilidades de um recomeço. Desfaz, inclusive, a confusão conceitual entre emprego e trabalho.

O livro apresenta o caminho das pedras de quem percorreu todos eles, mas é preciso cautela para que os leitores não confundam as reflexões com receitas de bolo. Nesse sentido, é bom saber a quantas anda nossa trajetória profissional, pois, dependendo de nossa escolha, precisaremos terraplanar a estrada ou tão-somente pavimentá-la.

O livro deverá se tornar bibliografia básica nos cursos de jornalismo, principalmente na disciplina Empreendedorismo na Comunicação, obrigatória em algumas instituições de ensino superior. Para o estudante e o recém-formado, é bussola para orientação do profissional numa perspectiva autônoma. Para os veteranos, uma forma de ter um plano B na carreira. Serve ao mesmo questionamento do início: estou desempregado, e agora?

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