Por Natalia Valle Lacerda
Várias pessoas sonham em, um dia, passar uma temporada na casa mais visitada no Brasil, isto é, participar do programa Big Brother Brasil. Os principais estímulos são os altos valores em jogo: R$ 1 milhão para o ganhador, de R$ 100 mil para o segundo e de R$ 50 mil para o terceiro colocado. E os prêmios a que os participantes concorrem dentro da casa, além, é claro, a fama tão esperada quanto passageira.
Muitas questões podem ser levantadas: será que vale a pena expor a vida pessoal para todo o país só para ganhar prêmios? Será por conta da fama? É necessário ter algum perfil ou alguma vocação para estar lá dentro? Os participantes são pessoas ou personas, quer dizer, apenas teriam máscaras que caem ao longo do programa? E será que caem mesmo? Existe mesmo o antes e o depois do confinamento, ou seja, as pessoas realmente se transformam? E o público, se transforma quando está passando o programa? Como acontece essa mudança?
Primeiramente, o Big Brother Brasil, extraído de um reality show da Holanda, tem como objetivo o confinamento de 14 participantes em uma casa isolada do mundo, mas rodeada por muitas câmeras por quase três meses. O único contato com o exterior que os integrantes possuem é por meio do apresentador Pedro Bial. Além disso, os jogadores precisam ter muita paciência, afinal têm de conviver com todos os outros, desconhecidos até entrarem na casa, 24 horas por dia e também se dispor a participar de todas as provas que, na maioria das vezes, são as causadoras de discórdias.
E essa oitava edição, em específico, não deixou a desejar, até porque a produção trabalhou muito bem para alcançar a quase perfeição. As provas foram criadas de maneira a desenvolver assunto entre eles por um bom tempo. E a edição do programa foi muito eficaz, concretizando a manipulação dos confinados e dos telespectadores, e ainda mostrando a ideologia da empresa, no caso, a Rede Globo.
É perceptível como a emissão gira em torno da teoria hipodérmica da comunicação, aquela que joga muitas informações para uma massa passiva, onde se encaixa com a teoria do agenda-setting, que mostra o poder dos mass media em controlar a sociedade. Programando a vida de milhões de pessoas, paralisando-as em determinados momentos para assistir a algum programa. A prova disso está na importância que o público dá ao reality show, deixando sempre o horário das 22h livre. Ou então, no término do confinamento, sempre existem alguns telespectadores que ainda esperam acontecer alguma coisa naquele horário.
Quanto aos participantes, tivemos algumas peças chave como o psiquiatra Marcelo, grande causador de intrigas e discussões na casa, a brasiliense Thati, com a explosiva notícia da sua sexualidade, Gyselle e o seu passado obscuro e os outros, considerados figurantes, mas em papéis importantes. Marcelo, que tentou se comunicar com todos, mas ao longo do programa analisou o perfil de cada um, descobriu as fofocas e falsidades, foi quando se distanciou da maioria, se “isolando” junto de Gyselle, adjetivada como a coitadinha, sempre deixada de lado. Porém, mostrou quem realmente com o passar do tempo e evidenciou para que estava ali.
E não se pode esquecer o grande vencedor, Rafinha. Também o foco em vários momentos do reality show, conseguiu se aproximar de todos da melhor forma, ou seja, o bonzinho que impôs seu jeito e conseguiu ser respeitado dentro da casa, mesmo sendo alvo do psiquiatra em uma das discussões.
Muitos falam que não é possível chegar ao fim do programa com supostas interpretações, mas penso que as máscaras podem permanecer até o final, até porque lá dentro os participantes não falam tudo que sentem realmente, e, sim, guardam muitas sensações que, se não estivessem lá, teriam posto para fora com muita espontaneidade. Já em relação à mudança de atitudes ou valores que acontecem com os confinados, alguns valores se transformam de fato, pois a convivência obrigatória e teoricamente harmônica com desconhecidos faz com que repensem em muitas coisas, que, se não tivessem passado por tal experiência, não reagiriam como de agora em diante.
Se a fama ajuda nessa mudança? Não tenho tanta certeza. Em certa parte até colabora, mas não é o fator principal. É algo explosivo, rápido, que, dependendo de quem seja, pode durar mais. Pois sim, o reality show serve também para dar aquele empurrãozinho na carreira dos ex-participantes que efetivamente desejam ficar no meio das estrelas de tevê.